A produção brasileira de camarão cultivado (Litopenaeus vannamei) caminha para registrar a marca histórica de 250 mil toneladas em 2026, com projeções setoriais da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC) estimando até 400 mil toneladas em 2030, conforme entrevista especial com o engenheiro de pesca Marcelo Borba divulgada pela Feed&Food. No entanto, o expressivo salto produtivo esbarra em margens comprimidas pelos custos de ração, eletricidade e pós-larvas, agravados pela carência de estruturas frigoríficas — já que 70% do volume ainda é comercializado in natura —, exigindo profissionalização técnica na interiorização da atividade em águas de baixa salinidade, que já concentram entre 60% e 70% das fazendas nacionais.
Crescimento Físico Versus Captura de Valor Econômico
A carcinicultura brasileira passou por uma verdadeira revolução estrutural na última década. Antes concentrada em grandes empreendimentos costeiros nos estuários do Rio Grande do Norte e Ceará, a atividade expandiu-se rapidamente para micro, pequenos e médios produtores familiares no interior do semiárido e áreas agrícolas do Nordeste, aproveitando poços artesianos e águas salobras subterrâneas.
Contudo, como pontua o especialista Marcelo Borba, "volume mede crescimento, mas valor capturado pelo produtor mede maturidade". A dependência de vendas de camarão fresco in natura em feiras e intermediários locais limita o poder de barganha do carcinicultor, deixando-o vulnerável a quedas abruptas de preços quando ocorrem picos de despesca simultâneos na mesma microrregião.
Desafios da Interiorização e Manejo de Baixa Salinidade
O avanço dos viveiros de terra em áreas afastadas do litoral impõe exigências ecológicas e operacionais estritas:
- Balanço Iônico da Água: O cultivo em águas continentais de baixa salinidade requer calagem e suplementação precisa de minerais (magnésio, potássio e cálcio) para garantir a muda da carapaça e a higidez fisiológica do camarão.
- Estruturação da Cadeia de Frio: Para escapar da volatilidade do produto fresco, o setor precisa de incentivos fiscais e linhas de crédito para instalar unidades cooperativas de processamento, descasque e congelamento rápido individual (IQF).
- Biosseguridade e Pós-Larvas Certificadas: O povoamento com larvas de alta sanidade genética (SPF) e o tratamento de efluentes em bacias de sedimentação são vitais para evitar a disseminação de viroses como a mancha-branca.
Perspectivas até 2030
Com regularização ambiental simplificada, assistência agronômica de campo e expansão da distribuição refrigerada nos grandes supermercados do Sudeste e Sul, a carcinicultura nacional tem potencial para atingir até 500 mil toneladas em 2031, consolidando o camarão cultivado como uma proteína acessível na mesa dos brasileiros e um vetor transformador de renda no interior do país.
Fonte: Feed&Food (Carcinicultura Pode Atingir 250 Mil Toneladas em 2026 - ABCC) | Feed&Food Revistas / ABCC